segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O mundo é novo (ou da MENTALidade)


O mundo é novo, e o mundo novo
só corriqueiramente novo, entretanto...
E retendo um outro:
O mundo velho é quase novo,
e o novo aparece velho...
Tudo tão exposto e... fugidio,
ido em destino comum exausto, desatino.
E as coisas se passam
como se fosse fora ou dentro.
Mas o mundo de cá é fora e dentro,
e o mundo de lá é dentro e fora.
Nunca há o que se esgote,
a manhã dessa sorte não é qualquer, ou morte!
Lugar da alma que não redunda,
muito menos rotunda sem sentido,
cogitabunda à consorte...

O que vê o olho? O que sente a pele?
O que beija o lábio? O que esmaece?
Ou permanece? E a ordem da cabeça?
Os caminhos da cognição profunda?

O significado e um toque, o significado
de um toque. Por sentimento e realidade.

Esse abstrato que corrói,
deixa o concreto revirado
nas margens de um rio que corre
e sai pra uma água não-molhada.

Vivida, porém. Suspirada. Espiralada.
Desesperada. Desesperadamente, sintática.
Nutrida dos bons anseios,
metida em horrendos temores,
mas sempre vivida... vivenciada, velada...
E vai! Pra uma totalidade torta.
E não se vive todos os instantes,
e de tudo se escolhe a experiência
e fica de um amante a esperança.
Toda viagem é de uma mente,
em olhares de aventurança,
tateando com sentido outro
a pluralidade das distâncias.
Enamorando o breve e o inconstante
no cerne de uma intensa eternidade,
em mundos interiores variando!

Por Henri

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Soneto, sonata, SONATO!


Segue o tempo, sobrevive nas horas:
Vida não resta aqui em pior mentira.
O tempo não põe luvas, nem as tira,
E não se omite sem ação, ora bolas!

Solução nenhuma no tempo se acha
O passado não se contém no tempo,
O futuro menos no contratempo,
O presente não é só forma ou só caixa.

Nem de boa intenção são as comunhões...
Dera as ilhas se o mar não se resiste!
Passagem quão solitária e quão triste,
da lacuna escrava e das pretensões.

E o silêncio... não ecoa sem momento,
certo dos ruídos que lhe dão acento.

por Henri

domingo, 10 de agosto de 2008

Ares, panos e destinos


E essas imagens que a gente enamoram,
pedra filosofal, longínqua espreita.
Sem álibi algum a essa alma suspeita
vestígios penosos se desdobram...

Perdido tempo que fé inda semeia,
não pela história, mas por geral forma,
matuta do destino enfado cheia...
...de recalque inteira em infausta norma.

Quantos se perderam em calmaria!
E por partida frutuosa e boa,
já em voz conflituosa nó se entoa.
Insônia de típica agonia.

Oh, dúbia senda! E ao capitão empata,
por vento ou velas, a ida da fragata!

por Henri

sábado, 5 de julho de 2008

Canto do Desdesencanto


Se de tudo já valeu o sido,
pra um mundo de porvires
que não deixa esmaecer
os olhares idos ou a sóbria passagem,
de tudo o que foi
não se era de uma vez;
ficou mais um tempo
e repousa... aqui!
Essa lembrança disfarçada em sonho...
Se já valeu pelo que foi,
suspiro ainda terno pro futuro
mesmo às piores implicações!

por Henri

sábado, 3 de maio de 2008

Poema de amor novo (ou de beira de igarapé)


Mãe d'Água já advertia estrepitosa
por lírica melódica e harmônica.
E mesmo já de popular e em prosa,
assaz a mim se ergueu lendária tônica.

Sussurrando irreal ao pé do ouvido,
beijando-me o lábio sem o tocá-lo;
Eis enveredante desconhecido!
Que é sereia tal Iara em aura e halo...

Sutil e solto golpe incendiário
que ao sujeito lhe põe sossego ao ato;
que o cora a ação em mote sujeitado.

Torpe de premissas e corolário...
num imaginário sonoro e lato
alumbrado por jeito sem passado.

por Henri

domingo, 27 de abril de 2008

Perturbações e inconseqüências


Empírico à flor da pele rebate
um gelado de um corpo ainda quente,
por arrepios vivo no que sente,
revolto de pensamentos e embate!

No que de tensos lábios se respira
abstrata forma em sopros de lira,
que enternece o céu vasto e cinéreo
de ido humano em magnético mistério!

No que os olhos cruzam negros olhares,
às caladas desumanas do siso,
penumbrados sensos familiares
em imo consumido e indeciso...

De entre alvorecer e ocaso expremido
tão longo desordenado o sentido...

por Henri

domingo, 23 de março de 2008

A viuvinha


A nevasca repentina da manhã passada
na cidadezinha cafeinada
trouxe alívio para a viuvinha desaliviada.
Recusada e sentada coberta
à varandinha amadeirada
de sua descuidada casa.
A nevasca que parou a estação de trem,
fechou as vias municipais,
e as inter-municipais também,
desfolhou os galhos longe do outono,
despiou os extrovertidos passarinhos,
despejou o joão-de-barro,
cobriu todos os telhados,
gelou os corpos amanhecidos...
e até mesmo desviou a atenção
do pão ou do circo madrugados.
Só mesmo ela sentiu-se à vontade
em catástrofe tão catastrófica.
Só mesmo ela não se arrepiou
em sua cadeira de balanço torta.
Só ela reconheceu no nada
que sem par não há história!

por Henri

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Palpites anuviados de paixão mundana


Acredito que sou pessimista.
Quando reflito sobre, adio o ser.
E meus calafrios pulsam
sob a cútis enrugada e jovem.

Nos primórdios, era cálido o dia
ensolarado e o sol, oblíquo.
Para uma noite solitária
e bela, sob nuvens sem luar.

Foi a vela dos meus olhos atentos
fechados. E iluminou meus sonhos
vagantes e íntimos e secos, breves,
com aquele olhar candente ingênuo.

Pôde o dia retirar-me riso
de tempos deveras inesperados,
que julgavam-me pelas cutículas
que já não possuo mais...

E como se não bastasse ser
a trégua de que tanto careço,
deu-me felicidade em sorriso.
E estive despertado em convite

para saborear-lhe os licores...
entorpecer-me no alcoólico
da simpatia sua. Despindo meus
costumes da ironia mais antiga.

Perspicaz como um pecador
e pecador como um infiel sem culpa,
nada fazia-me negar seus afetos.
Se bem ainda possa ser divina

presença aquela tão bem-vinda,
sabendo da soturnidade sagrada,
sempre inesperada, à semelhança
de com os martírios de Montecristo.

Intrépida, sutil, ambígua
a esperança fez sentido na
dúvida de toda imanente certeza
e desatento prendi meus olhares

no desvanecido e no podre, na
desiludida e no insone, angústias
e amores, sem distingüir,
senão mais tarde, contradição aquela

em unicidade de um panteão.
E tal qual um cego ouve mais
do que qualquer outro e na
compensação um surdo seja mais

visionário que o ouvinte,
eu passei despercebido do mundo,
pelo amontoado das coisas como
se juntasse em mim um e outro.

E perdesse a fala. Mudo permaneci por
compreender nada mais que o vácuo
e perder-me em absurdos, para que
o mistério fosse indesvendável.

Para aquele que o olfato é fraco
e o paladar devasso, apesar de
determinado e indiscreto, contrariando
a sensibilidade pelo condimento.

E o tato inalcançavelmente simples,
absorvido em sensações profanas
a fim de tornar o sacro mais
inteligível e o ápice mais cosmológico.

E mais uma vez as imagens se
recompunham permitindo à mente
imaginar a preponderância e dar
continuidade renovada e aflita,

desvairada e insípida a devaneios
relapsos da vontade de rever
nessa vida o desenho retido
firmemente dessa memória coligida,

impondo ao pensamento o medo de
ter-lhe marcado as janelas, inevitável.
Nunca de tão fatigadas e desejosas
se tinham a tal ponto essas retinas

exposto à luz. E tantas vezes, como
se ao filme sobrepusessem negativos,
e dos movimentos insólitos que os olhos
fitaram numa eternidade de um

quarto de hora soçobrasse o imperfeito.
Nada podia desviar essa morte
de mim mesmo, aludindo à impotência
da esfinge na defesa do enigma.

Sobrou a placidez de minha memória
tantas vezes por essas trilhas
utilizada que pendente e escorada
descansa os ardores e a corcunda.

E ousando lamentar-lhe a ausência,
esfolam-se as chagas de minhas idéias
e, na contradição das penitências,
os sentimentos, lapidada a dor expia.

E é como se a mágoa, não obstante
os excessos, fosse-me falta, a ser
acariciada pela purificação que
significaram os olhares e os sorrisos

do dia quente e calmo em meio
à brisa leve e fresca e fina,
do primórdio dessa desventura
florida, sob cheiro de maresia...

Para quem de conhecer-lhe vacila,
e absorto e perplexo ama em sonífero,
tomado da tristeza de um sonho vivo
de que se acorda singelo sem seu reluz.

por Henri

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Por meias e sapatos


Ano novo, cenas novas...
presente novo e desligado
recém-nascido de uma fúria
incontrolável...
sapato novo,
meia nova,
e velhas calças.
Ah, velhas! Rasgadas e tudo,
mas a meia é branquinha,
o sapato limpinho...
prontos para pisotear,
correr, andar, pular...
se aventurar ruidosa
e ensurdecedoramente...
e não sujar ou machucar
aqueles pés de um barro,
propositalmente, pisoteado...
Banho novo,
pele nova, vestido novo.
Clarinho!
Que até reflete na alma o seu vazio,
ou é mesmo paz.
Uma paz que não tem nada
com o que se preocupar...
Presente novo,
esperança nova,
sorrisos novos que vêm
repentinamente após
os estrondosos fogos
anunciando o reveillón.
Mas não tarde a seguir-se
de um pranto por uma briga...
de seus lamentos, de suas feridas.
Elas tornaram-se velhas,
brindadas no fim de um segundo...
E como tudo o que é velho,
ficam pra trás,
a gente delas se desfaz...
Existiu uns minutos atrás,
agora não existe mais...
Para começar o novo,
o zero bala, o pronto pra outra,
nem que seja de repente
e da forma mais insurgente...
Porque urge escorar a coragem
nas brechas incontestáveis
do calendário...

por Henri