terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Palpites anuviados de paixão mundana


Acredito que sou pessimista.
Quando reflito sobre, adio o ser.
E meus calafrios pulsam
sob a cútis enrugada e jovem.

Nos primórdios, era cálido o dia
ensolarado e o sol, oblíquo.
Para uma noite solitária
e bela, sob nuvens sem luar.

Foi a vela dos meus olhos atentos
fechados. E iluminou meus sonhos
vagantes e íntimos e secos, breves,
com aquele olhar candente ingênuo.

Pôde o dia retirar-me riso
de tempos deveras inesperados,
que julgavam-me pelas cutículas
que já não possuo mais...

E como se não bastasse ser
a trégua de que tanto careço,
deu-me felicidade em sorriso.
E estive despertado em convite

para saborear-lhe os licores...
entorpecer-me no alcoólico
da simpatia sua. Despindo meus
costumes da ironia mais antiga.

Perspicaz como um pecador
e pecador como um infiel sem culpa,
nada fazia-me negar seus afetos.
Se bem ainda possa ser divina

presença aquela tão bem-vinda,
sabendo da soturnidade sagrada,
sempre inesperada, à semelhança
de com os martírios de Montecristo.

Intrépida, sutil, ambígua
a esperança fez sentido na
dúvida de toda imanente certeza
e desatento prendi meus olhares

no desvanecido e no podre, na
desiludida e no insone, angústias
e amores, sem distingüir,
senão mais tarde, contradição aquela

em unicidade de um panteão.
E tal qual um cego ouve mais
do que qualquer outro e na
compensação um surdo seja mais

visionário que o ouvinte,
eu passei despercebido do mundo,
pelo amontoado das coisas como
se juntasse em mim um e outro.

E perdesse a fala. Mudo permaneci por
compreender nada mais que o vácuo
e perder-me em absurdos, para que
o mistério fosse indesvendável.

Para aquele que o olfato é fraco
e o paladar devasso, apesar de
determinado e indiscreto, contrariando
a sensibilidade pelo condimento.

E o tato inalcançavelmente simples,
absorvido em sensações profanas
a fim de tornar o sacro mais
inteligível e o ápice mais cosmológico.

E mais uma vez as imagens se
recompunham permitindo à mente
imaginar a preponderância e dar
continuidade renovada e aflita,

desvairada e insípida a devaneios
relapsos da vontade de rever
nessa vida o desenho retido
firmemente dessa memória coligida,

impondo ao pensamento o medo de
ter-lhe marcado as janelas, inevitável.
Nunca de tão fatigadas e desejosas
se tinham a tal ponto essas retinas

exposto à luz. E tantas vezes, como
se ao filme sobrepusessem negativos,
e dos movimentos insólitos que os olhos
fitaram numa eternidade de um

quarto de hora soçobrasse o imperfeito.
Nada podia desviar essa morte
de mim mesmo, aludindo à impotência
da esfinge na defesa do enigma.

Sobrou a placidez de minha memória
tantas vezes por essas trilhas
utilizada que pendente e escorada
descansa os ardores e a corcunda.

E ousando lamentar-lhe a ausência,
esfolam-se as chagas de minhas idéias
e, na contradição das penitências,
os sentimentos, lapidada a dor expia.

E é como se a mágoa, não obstante
os excessos, fosse-me falta, a ser
acariciada pela purificação que
significaram os olhares e os sorrisos

do dia quente e calmo em meio
à brisa leve e fresca e fina,
do primórdio dessa desventura
florida, sob cheiro de maresia...

Para quem de conhecer-lhe vacila,
e absorto e perplexo ama em sonífero,
tomado da tristeza de um sonho vivo
de que se acorda singelo sem seu reluz.

por Henri